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13 de abril de 2007

Cinema | À espera da morte de Laura, Nikki ou Susan?

cinecrítica

Inland Empire, o mais recente filme de David Lynch, é uma alucinação. O que não surpreende, dado tratar-se de Lynch. Laura Dern, mulher do músico Ben Harper, é a protagonista do filme dentro do filme. É ela quem alucina connosco, que estamos do outro lado do ecrã e não sabemos como encaixar todas as peças que o filme nos apresenta. É como se estivessemos diante de um gigantesco puzzle e, mentalmente, nos esforçássemos por organizá-lo. Mas é um esforço inútil, porque o puzzle parece, afinal, ser desdobrar-se em vários outros puzzles, ao ponto de nos perdermos em tentativas inúteis de compreender um todo que provavelmente não existe. Porém, o que intriga o espectador e transforma os trabalhos de Lynch em "must see", mesmo quando não estão ao seu melhor nível, é que, pontualmente, há uma pequena peça do puzzle que se encaixa e, na nossa mente, ocorre um pequeno clique. "Ah, curioso...", ficamos nós a pensar, porque encontramos um sentido subtil em algo que não parecia ter sentido algum.

Voltando a Laura, ela é Nikki Grace, uma actriz que procura regressar ao topo e que é escolhida para interpretar a protagonista de um promissor filme. O que Nikki não sabe é que o papel de Susan Blue se vai confundir com a própria história da sua vida. Lendas e maldições polacas são apresentadas por personagens estranhas que, através do olhar de Lynch, se tornam ainda mais bizarras. São três horas de pura alucinação, ideias que de repente se atravessam diante de nós e depois desaparecem, histórias que se entrelaçam, perspectivas subjectivas e confusas... No fim, podemos escolher a interpretação incompleta que, de algum modo, a nossa mente fez ou, por outro lado, comprar um bilhete para a sessão seguinte...

Em poucas palavras

O melhor: o clique que, ocasionalmente, dá-se na nossa mente, na esperança de, afinal, existir ali algum sentido.
O pior: são três longas horas que, eventualmente, se tornam muito desconfortáveis.

3 estrelas e 1/2

4 de fevereiro de 2007

Cinema | Quando o livro entra pelo filme adentro

cinecrítica

O meu primeiro contacto com "Stranger Than Fiction"/"Contado Ninguém Acredita" (2006), de Marc Forster, foi o respectivo trailer. E, desde logo, achei que a ideia de o protagonista de um livro ser uma pessoa real e, a dada altura, começar a ouvir uma voz que narra a sua vida (ou seja, o narrador omnisciente e omnipresente de um livro) era genial. Mas todos sabemos que os trailers são, por vezes, uma desilusão: ou porque contam a história toda e o filme não acrescenta grande coisa, ou porque são simplesmente uma fraude e prometem-nos outro filme. Em relação ao "Stranger Than Fiction", se adoraram o trailer como eu, podem ir vê-lo descansados. Porque o filme é tudo aquilo e muito mais.

Harold Crick (Will Ferrell) tem uma vida numericamente certinha até que, um dia, a escritora Kay Eiffel (Emma Thompson) decide virá-la do avesso. Começa ela a narrar, começa ele a ouvir e, a dada altura, diz: "Little did he know that this simple seemingly innocuous act would result in his imminent death". O QUÊ? Eu vou morrer? é o que basicamente Harold grita, olhando para o céu, junto das outras pessoas que, tal como ele, estão à espera do autocarro. A única diferença é que estas últimas pensam que Harold é doido, a falar sozinho, aos berros, no meio da rua, e Harold sabe que não é doido.

Por isso, é mesmo verdade que "contado ninguém acredita". Quem poderia imaginar que alguém, a viver uma semi-existência pacata, podia de repente tornar-se num protagonista de um romance, com todas as acções e acontecimentos da sua vida a serem ditados por um narrador omnisciente e omnipresente que, num determinado momento, anuncia a sua morte? É genial, o argumento partiu desta ideia e transformou-a numa história com princípio, meio e fim, coerente, divertida, entre a tragédia e a comédia. E a cereja no topo deste bolo (alusões a pastelaria são mais do que adequadas) é a música - a banda sonora de "Stranger Than Fiction" merece ser ouvida com atenção.


Em poucas palavras:

O melhor: A ideia-chave do filme é genialmente desenvolvida
O pior: Nada a apontar

4 estrelas e 1/2

1 de fevereiro de 2007

Cinema | "You put the happy in my ness"

cinecrítica

Realizado pelo italiano Gabriele Muccino, "The Pursuit of Happyness"/"Em Busca da Felicidade" podia ser apenas mais um drama sobre um pai que quer o melhor para o filho e esforça-se por alcançar a felicidade de ambos. Mas é muito mais do que isso graças ao argumento excepcional de Steve Conrad e ao grande desempenho de Will Smith como Chris Gardner, o pai na vida real e no ecrã de Jaden Christopher Syre Smith/Christopher.

O árduo caminho para a felicidade: nem sempre o facto de sermos inteligentes significa que conseguimos concretizar os nossos sonhos. Muitas vezes, a vida surpreende-nos, fazemos escolhas erradas e acabamos por afastar-nos da rota desejada. Infeliz com o rumo que a sua vida tomou, Chris vê um dia a felicidade espelhada no rosto de outras pessoas e decide correr atrás dela. Mas confronta-se com inúmeras dificuldades e é a história de tudo o que vive para chegar ao pote de ouro no fim do arco-iris que torna este um óptimo filme.

"The Pursuit of Happyness" é mágico e tem a capacidade de chegar até ao espectador, seja através do sorriso ou de uma lágrima.


Em poucas palavras:

O melhor: A química pai-filho de Will Smith e Jaden

O pior: A possibilidade de antever um ou outro acontecimento do filme (mas neste caso não é particularmente grave)

4 estrelas

11 de janeiro de 2007

Cinema | Heróis ou não, eis a questão

cinecrítica

"Flags of Our Fathers"/"As Bandeiras dos Nossos Pais" (2006), de Clint Eastwood, não é apenas um filme de guerra. Porque o género representa sempre uma limitação e leva-nos, neste caso, a associá-lo a violência, armas de fogo, mortes e frequentemente uma história pobre. Em "Flags", a construção narrativa é feita de flashbacks nem sempre correctamente encadeados no tempo, flashbacks que representam as memórias de alguns soldados que sobreviveram à batalha de Iwo Jima, uma ilha no Pacífico onde tropas americanas e nipónicas se confrontaram durante a II Guerra Mundial. E, mais do que a guerra em si (cujos momentos de violência atroz estão, de qualquer modo, presentes), o que interessa é a história daquelas vidas que, devido a uma mera fotografia, foram elevados à categoria de heróis. Mas será que foram eles os verdadeiros heróis daquela guerra? São eles mesmos quem coloca a questão, porque os heróis salvam vidas e, no campo da batalha, eles foram incapazes de salvar os seus companheiros e amigos. A perspectiva de Clint Eastwood, ícone do cinema americano nas categorias de actor e realizador, afasta-se de registos falhados do passado e, na minha opinião, é bastante humilde. Porque, na guerra, não há vencedores.

Com Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach

Em poucas palavras:

O melhor - Ultrapassa os limites do estereótipo do género.

O pior - Continua a ser um filme de guerra e a violência, não recomendada a pessoas mais sensíveis, está presente.

4 estrelas

10 de janeiro de 2007

Cinema | Vida de "vaca"

cinecrítica

"Fast Food Nation"/"Geração Fast Food" (2006), de Richard Linklater, foi feito para deixar o espectador a pensar. Pessoalmente, uma das primeiras conclusões que tirei foi a de que, se comesse vaca, a partir de agora deixaria de o fazer. Não só porque a carne de hamburger resulta de um preparado excessivamente heterogéneo (leia-se o melhor e o pior que pode existir no corpo de uma vaca), mas porque a matança destes animais é cruel e Linklater teve a coragem de exibi-la no ecrã gigantesco de uma sala de cinema. Muitas vezes não temos noção do sofrimento pelo qual os animais passam para que nós os possamos ter nos nossos pratos. Depois do que vi neste filme, decididamente considero que todas as pessoas também deveriam vê-lo.

Mas "Fast Food Nation" não ataca apenas a qualidade da carne de vaca utilizada na preparação de hamburgers. O outro lado negro é a exploração a que se submetem os funcionários de grandes e poderosas empresas que trabalham directamente para cadeias alimentares como o MacDonald's ou o Burger King. O caso retratado no filme diz respeito aos emigrantes ilegais mexicanos que, por uma vida melhor, põem a própria vida em risco, abdicam do orgulho e aceitam as tarefas mais asquerosas do mundo. Este facto relembra-nos de que vivemos num planeta feito de desigualdades e que, devido à pobreza, milhões de pessoas sujeitam-se a condições desumanas.

Por fim, se todas estas características de "Fast Food Nation" não são suficientes para já amanhã ir vê-lo ao cinema, resta dizer que muitas celebridades desfilam pelo grande ecrã: Greg Kinnear ("Godsend", "Stuck on You"), Wilmer Valderrama ("That '70s Show"), Luis Guzmán ("Traffic"), Ashley Johnson (Nine Months, What Women Want), Paul Dano ("Little Miss Sunshine"), Patricia Arquette ("Medium", "Lost Highway"), Kris Kristofferson ("Planet of the Apes"), Bruce Willis ("Die Hard"), Ethan Hawke ("Dead Poets Society"), Avril Lavigne (cantora).Em poucas palavras:

O melhor - é um filme que convida a pensar.

O pior - algumas imagens são bastante chocantes e não recomendadas a pessoas sensíveis.

4 estrelas